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Ó, céus! Ó, vida! Ó, azar!
A crise da modernidade colocou a ansiedade e a depressão
entre os dois distúrbios responsáveis pela metade
das doenças mentais estimadas no mundo. Aproximadamente
15 milhões de brasileiros adultos padecem sob tal sofrimento
Por Pamela Cristina Leme
A reclamona hiena Hardy do antigo desenho "Lippy and Hardy,
datado da década de 60, serve como típico exemplo
de uma criatura ansiosa em potencial. Antes mesmo de botar suas
atitudes em prática, se lamentava se tal feito daria certo
e soltava o famoso bordão, homônimo do título
desta reportagem. "A ansiedade faz parte das emoções.
Alguns a sentem com mais intensidade que outros, mas ninguém
está incólume a ela. Tal sentimento representa a
percepção de que não temos controle sobre
nossa vida e o quanto somos vulneráveis e frágeis",
explica Dra. Dorit Wallach, especialista em psicologia psicossomática.
A médica diz que a sensação de que algo está
para acontecer nos deixa num estado de alerta contínuo,
e, diante do perigo, tomamos atitudes atípicas.
O
problema é que nem sempre a ansiedade é positiva.
Ela permite uma adaptação até onde o organismo
é capaz de atingir o máximo de eficiência, mas
a partir de um ponto excedente, pode ocorrer o efeito contrário:
a falência da capacidade adaptativa, que desencadeia o esgotamento
e o desempenho pessoal. "Ficamos ansiosos quando acumulamos
tensão e não encontramos maneiras de eliminá-la,
daí nos sentimos como se estivéssemos exprimidos contra
uma parede, perdemos o fôlego e não conseguimos perceber
o que aconteceu para nos sentirmos assim", sinaliza o psiquiatra
Dr. Leonard F. Verea, membro da Associação Brasileira
de Medicina Psicossomática. "A partir daí, passamos
a desenvolver uma forte excitação no sistema nervoso
central e o desenvolvimento de diversos sintomas físicos
e psíquicos, como taquicardia, sudorese, tremores, tensão
muscular, aumento das secreções urinárias e
fecais, e da motilidade intestinal, dor de cabeça, além
da diminuição da auto-estima e problemas com relacionamentos
interpessoais", completa.
Doutor Leonard conta que esse processo acontece graças a
uma descarga de um neurotransmissor chamado noradrenalina, produzido
nas supra-renais, no lócus cerúleos e no núcleo
amigdalóide, e se manifesta quando alguém está
num estado caracterizado por medo, apreensão, mal-estar,
desconforto, insegurança ou estranheza do ambiente. Quando
nesse estado, a ansiedade pode causar falta de ar, respiração
curta, aperto no peito, ondas de calor, calafrios, formigamento,
náusea e irritação.
Mal do século
Pesquisas
recentes comprovaram que a ansiedade figura entre as principais
causas de afastamentos do ambiente de trabalho por alegações
de problemas de saúde. "É um mal do século.
A vida está cada vez mais complicada, os níveis de
tolerância diminuem, a sociedade cobra cada vez mais da gente,
precisamos ser líderes o tempo todo e vivemos sufocados com
a idéia de mantermos o controle quanto as nossas emoções
e finanças", pontua Dra. Dorit. Relatórios produzidos
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nos
últimos anos têm apontado que, nas próximas
décadas, deve crescer o número de pessoas com doenças
afetivas (aquelas ligadas ao humor) em virtude de fatores como altas
taxas de desemprego, educação precária e pobreza.
A crise da modernidade já colocou a ansiedade e a depressão
entre os dois distúrbios responsáveis pela metade
das doenças mentais estimadas no mundo. Ainda não
há números exatos sobre o quadro de ansiosos no Brasil,
mas especialistas da área da saúde estimam que existam
pelo menos 15 milhões de brasileiros adultos padecendo dos
sofrimentos mais graves relacionados ao problema - a ansiedade patológica
e os transtornos decorrentes dela (transtorno do pânico, fobias,
transtorno obsessivo-compulsivo) são as doenças mentais
mais freqüentes.
Cabe
ressaltar que as origens da sensação também
podem ser genéticas. "Algumas pesquisas mostram que
vem da infância a pré-disposição de algumas
pessoas. Famílias com histórico de depressão
ou pais muito ansiosos ou problemáticos podem provocar uma
ansiedade precoce", aponta a psicóloga. Nestes casos,
as conseqüências surgem bem cedo: desde criança,
o indivíduo é agitado, hiperativo, chora com facilidade
e tem dificuldade de dormir. Além disso, uma infância
carente e problemática, marcada por dificuldades vivenciadas
pelos pais, pode fazer com que uma pessoa cresça se sentindo
insegura e exposta ao mundo.
Razão versus emoção
A manifestação de sintomas como taquicardia, mal-estar
abdominal, tensão muscular, acompanhados de irritação
e de uma imensa dificuldade para relaxar diante de situações
que gerem ansiedade são suficientes para determinar que alguém
sofra de uma ansiedade generalizada. Ela afeta a vida social, familiar,
profissional e até o aprendizado. O cansaço excessivo
típico de quem sofre desse tipo de transtorno impede que
o ansioso sinta vontade de sair com os amigos. E a irritação
acaba descontada nos familiares. No trabalho, a produtividade cai.
"As pessoas ansiosas ficam com a auto-estima cada vez mais
baixa, passam a viver para agradar os outros, esperam sempre pela
aprovação alheia e perdem a individualidade. Por essa
razão, se afastam do trabalho porque não conseguem
desenvolver as atividades profissionais nem enfrentar os desafios
propostos. Nas relações afetivas, a emoção
sempre toma conta da razão", ressalta Dr. Leonard.
Anime-se, Hardy!
Para
poder combater a ansiedade, o primeiro passo é identificá-la.
"É preciso que seja trabalhada uma relação
de causa e efeito. Todas as questões mal resolvidas precisam
ser enfrentadas. Para isso, a ajuda de um médico especialista
é fundamental", garante Dr. Leonard. Segundo ele, a
psicoterapia comportamental é uma das mais eficientes no
tratamento da ansiedade.
Prestar atenção na respiração é
uma boa maneira para alcançar o relaxamento corporal. De
acordo com os médicos, a freqüência respiratória
precisa ser diminuída. Deve-se inspirar lentamente e encher
o pulmão em mais ou menos 75%. Em seguida, é preciso
expirar e tirar todo o ar do pulmão (inclusive com a ajuda
de um diafragma), ainda de forma lenta. A respiração
tem a capacidade de relaxar o corpo e a mente. Uma dieta balanceada
também ajuda a controlar os estímulos dos ansiosos.
As verduras, legumes e frutas têm compostos que contribuem
para regular os neurotransmissores envolvidos no processamento das
emoções. Já a prática de exercícios
físicos libera hormônios tranqüilizadores. Acima
de tudo, como diria o otimista leão Lippy cada vez que a
hiena soltava seu velho bordão, "anime-se, Hardy!".
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