Status do consumo de álcool nas Américas

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CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool

A Organização Panamericana de Saúde (OPAS, o escritório regional da Organização Mundial da Saúde – OMS, para as Américas) divulgou em julho de 2015 o relatório “Status do consumo de álcool nas Américas”, que examinou os padrões e consequências do uso de álcool nos 36 países da região.

Com dados de 2010 a 2012, corresponde a um primeiro desdobramento do relatório lançado em 2014 pela OMS, que reforça a meta voluntária de redução do consumo nocivo* em 10% até o ano de 2025. Destacou-se a necessidade de novas e mais amplas pesquisas epidemiológicas nacionais consistentes, tendo em vista que a falta de dados oficiais de qualidade é o principal fator limitante do levantamento adequado da questão.

Perfil de consumo

O consumo de álcool na região das Américas é maior do que a média mundial. A frequência do Beber Pesado Episódico** (BPE, também chamado neste relatório de “episódios de consumo excessivo”) nas Américas é de 1 em cada 5 bebedores (22%), enquanto a média mundial é de 16%. Em especial, nos últimos cinco anos houve aumento expressivo do BPE: as mulheres aumentaram de 4,6 a 13% e homens de 17,9 para 29,4%.

Notam-se ainda grandes diferenças entre os gêneros nos países americanos em termos de consumo de álcool. Por exemplo, as mulheres chilenas praticamente não incorrem em episódios de consumo excessivo (0,1%), enquanto entre homens a frequência é de 13,5%. Na Guatemala, por exemplo, homens bebem até 15 vezes mais que mulheres, enquanto no Brasil essa diferença é de 3 vezes.

Com relação aos tipos de bebida, a cerveja é a bebida de preferência nas Américas, ainda que em alguns países caribenhos predomine destilados e em países como Argentina, Chile e Uruguai predomine o vinho.

Álcool e saúde

O uso nocivo de álcool contribui para desenvolvimento de mais de 200 doenças, incluindo lesões, alguns tipos de câncer, infecções – como HIV – e transtornos mentais. É ainda o principal fator associado aos índices de incapacidade e morte entre pessoas de 15 a 49 anos no mundo. Nas Américas, complicações ligadas ao consumo de álcool foram responsáveis por cerca de 300 mil mortes em 2012, das quais 80 mil podem ser diretamente atribuíveis ao uso nocivo de tal substância. Ainda que muitas condições estejam relacionadas ao uso pesado e prolongado, até 35% das mortes e incapacidades têm relação com efeitos agudos do uso excessivo, principalmente acidentes e lesões.

Em 2010, as três principais causas de adoecimento relacionadas ao álcool foram cirrose hepática, transtornos por uso de álcool (TUA) e violência interpessoal. A cirrose foi a principal complicação para ambos os gêneros e os homens tendem a sofrer mais lesões e acidentes. A frequência de TUA nas Américas é relativamente alta quando comparada às demais regiões, sendo equivalente a 9% para homens (atrás apenas dos europeus) e 3,2% para as mulheres (maior que nas demais regiões do mundo).

O Brasil está em 3º lugar no índice de mortalidade atribuível ao álcool entre homens (74 por 100 mil habitantes) e em 11º lugar entre mulheres (12 por 100 mil habitantes). Quando comparados os resultados de 1990 e 2010, nota-se diminuição do índice de mortalidade para mulheres, de aproximadamente 6%, e aumento de aproximadamente 23% para homens. O relatório destaca que, embora tenha ocorrido redução na mortalidade relacionada ao álcool em quase todos os países que compõem a região das Américas, a maior parte das mortes acontece na faixa dos 30 a 59 anos, período em que é esperada maior produtividade pessoal e profissional dos indivíduos.

Juventude

Sabe-se que o consumo de álcool por adolescentes, além de prejudicar a formação do cérebro, aumenta o risco de consequências negativas como gravidez precoce e indesejada, violência, e acidentes. Quanto mais cedo ocorre o primeiro contato com uso de álcool, maiores os riscos de problemas. Por exemplo, consumir a primeira dose antes dos 15 anos aumenta em cinco vezes o risco de desenvolvimento de dependência e em sete vezes o risco de se envolver em acidentes de trânsito ou luta física. Preocupa o fato de que em muitos países americanos a maior parte dos jovens consome a primeira dose aos 14 anos.

Em 2010, cerca de 14 mil mortes de jovens com menos de 19 anos foram atribuídas ao álcool. O Brasil apresenta, entre os países das Américas, o maior índice de mortes relacionadas ao consumo de álcool por adolescentes com idade entre 15 e 19 anos, seguido por Guatemala e Venezuela. Constatou-se que os jovens das Américas costumam ingerir uma ou duas doses a mais por ocasião quando comparado aos adultos. Mais de 60% dos adolescentes homens em sete países (inclusive o Brasil) apresentaram perfil de BPE. Já para adolescentes mulheres os valores são menores; porém ainda elevados em alguns países, chegando ao máximo de 40% no Canadá. A frequência de BPE entre adolescentes na região das Américas só fica atrás da Europa, tanto para mulheres (7,1% versus 22%) como para homens (29,3% versus 40%).

Mulheres

O consumo de álcool pelas mulheres tem crescido em vários países e vem se aproximando ao dos homens, que historicamente sempre foi maior. Sabe-se que as mulheres tendem a apresentar problemas sociais e de saúde ligados ao consumo de álcool com doses menores, pois fisiologicamente são mais vulneráveis, fato que levanta uma série de preocupações tendo em vista esta mudança no perfil das consumidoras de álcool. Como mencionado no tópico Álcool e Saúde, o índice de TUA entre mulheres americanas é maior que no resto do mundo.

Perfil socioeconômico

O perfil socioeconômico da região das Américas é bastante heterogêneo, o que dificulta estudos comparativos entre os países. Apesar disso, constatou-se que em países de menor renda o álcool tem maior impacto negativo na saúde, mesmo se em intensidade semelhante a outros países mais ricos, diferença atribuída ao menor acesso aos serviços de saúde e a estratégias de prevenção com grupos de maior risco.

Povos indígenas

Povos indígenas são muito presentes nos países americanos, representando 13% da população, e são mais vulneráveis às consequências negativas do álcool por questões socioeconômico-culturais. Apesar de escassos, os dados referentes a essa população mostram maior risco para desenvolvimento de TUA, depressão, suicidalidade e outras complicações relacionadas ao álcool.

Álcool e direção

A combinação de álcool e direção é uma das principais causas de morte em jovens no mundo. A criação de limites de concentração sanguínea de álcool máxima permitida é considerada outra medida efetiva para redução do número de acidentes no trânsito.

No Brasil, a mudança da legislação relacionada ao beber e dirigir vem ocorrendo desde 1998. Atualmente, nosso país é um dos 25 do mundo que estabeleceram a tolerância zero para o consumo de álcool por motoristas e um dos 130 que usam o etilômetro (teste do “bafômetro”) como forma de monitoramento do cumprimento da lei. Alguns países da América ainda não têm limites estabelecidos (Bolivia, Paraguai e alguns caribenhos) e 5 possuem limite acima de 0,04 g/dL, o que é considerado alto por já ser capaz de impactar o risco de acidente.

Apesar das blitz policiais aleatórias serem consideradas custo-efetivas e colaborarem na diminuição de acidentes relacionados ao álcool, sua frequência e formas de execução são fatores essenciais para exercerem tal papel protetor. Assim sendo, o que se observa é que quando não há continuidade nas medidas fiscalizadoras, o impacto na redução de mortes viárias tende a desaparecer, apesar da existência de leis. Segundo este relatório da OPAS, o Brasil ainda apresenta altos índices de morte no trânsito, a despeito da implementação das medidas restritivas ao consumo de álcool por condutores.

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