Autoestima

Cada vez mais surgem novos estudos sobre à autoestima, e a psicologia vem enfatizando este assunto pesquisando cada vez mais os sentimentos do ser humano sobre seu valor pessoal. Uma auto-estima elevada é positiva. Pessoas que se sentem feliz em relação a si mesmas, têm boa noite de sono, sucumbem com menos facilidade às pressões para se conformarem, têm menor probabilidade de manipulação de drogas são mais persistentes em tarefas difíceis.

A autoestima não é somente o valor que a pessoa se dá. O ser humano vive em relação e nessa rede social precisamos também da confirmação de outro olhar mesmo sabendo o nosso valor ele só é aceito quando outras pessoas também confirmem o tal valor. Se um bom administrador, por exemplo, sabe que é competente, pontual, articulador e faz seu trabalho como poucos, ele provavelmente terá uma autoestima elevada, mas, se outras pessoas não valorizarem seu trabalho ele se sentirá frustrado e tendo uma idéia errônea de quem é realmente. Este texto me remete a falar sobre o tema delicado, pois implica o reconhecimento de que somos parte do processo de construção da auto-estima e  que portando podemos mudar o curso dos acontecimentos. Esta pode ser uma “leitura arriscada”, pois nos leva a repensar a nossa compreensão do social assim como  indagar sobre nossas potencialidades e ou limites de promover mudanças na estrutura social.

A conquista da autoestima é uma luta que passa pela socialização (indivíduo-grupo e grupo-grupo) contra a dominação. É uma luta para o respeito das diferenças dos sujeitos, sem esquecer que o próprio sujeito independentemente das regras que regem as relações pode também tornar-se um tirano para si próprio.

A pessoa internaliza uma imagem de si que corresponde ao que os outros “precisam” ver para exercer relações de dominação. O sujeito interioriza as imagens que os outros projetam sobre ele. Desde a infância somos preparados pelos pais e influenciados também pelo social para construirmos bem ou mal nossa estima. Uma criança que cresce ouvindo dos pais que é muito inteligente, que é esforçada e sempre vai conseguir alcançar seus objetivos, ela estará fortalecendo e construindo sua estima positivamente. Outro exemplo seria ao contrário, se uma criança crescesse sempre ouvindo que ela não será bem-sucedida no futuro, que não é inteligente, que é uma fracassada ou mesmo que os pais sejam mal-sucedidos, que não lutem por uma vida melhor, que tenham a estima baixa então a criança não terá tanto reforço positivo em casa para poder se sentir estimulada a gostar de si e de saber seu valor real. Se eu não gosto de mim mesmo, como espero que as pessoas gostem? Se eu não me orgulho do que eu faço, como espero que alguém se orgulhe? Se não admiro os meus próprios empreendimentos, quem irá admirar? Se eu não acredito em mim mesmo e nas minhas capacidades, quem irá acreditar? A auto-estima não é só uma questão de bem-estar consigo, mas também com o social.
Em que consiste essa forma de reconhecimento? Precisa-se que os outros, os seus colegas e companheiros valorizem suas capacidades de realizar as tarefas do ofício, mas também de realizá-las com certa maestria. E essa valorização é repatriada na identidade social. E é esse direito ao respeito que confirma seu direito de estar nesse lugar que ocupa, depende do reconhecimento do seu valor que permite o acesso à auto-estima. Ao respeito que o outro nos manifesta, corresponde uma parte da nossa estima. Mas esse “saber fazer” para poder exercer depende de você ter acesso à criatividade. Ora, esse atributo não se autoriza em condições de desconfiança, por exemplo, ou de competitividade reforçada para se obter produtividade.

A autoestima pode ser o equivalente a uma identidade social positiva dependente das boas relações de trabalho. Essas dependem, por sua vez, das lutas coletivas que permitem criar identificações positivas. Para retomar a idéia de SIGAUT (citado por DEJOURS; 1999), os sujeitos têm que ter uma compreensão do real (as suas sociedades, as suas empresas ou os seus grupos) a partir da qual é possível interpretar o real como eles o fazem. Se o sujeito é o único a interpretar o real desta forma, ele acaba questionando as suas capacidades de lucidez, se isola ou se acha incompreendido, quando, de fato, os estudos mostram que, em grande parte, são as condições de trabalho que impedem a comunicação entre colegas. E são essas integrações entre colegas que, através da criatividade, permitem também agir e transformar o que é sofrido. Não é, necessariamente, eliminar o sofrimento e as tensões, mas dar um tratamento possível e aceitável a partir do que somos.

Referências:

DEJOURS: La banalisation de l´injustice sociale Ed. Seuil Paris1998
Conferências Brasileiras, identidade, reconhecimento e transgressão no trabalho GV edições fundap: São Paulo, 1999.
NUNES, Christiane G. F. Trabalhando a auto-estima. Abril, 2006.

Autor: Jecely Teixeira – CRP 06/115303

Autismo

O autismo é um transtorno do desenvolvimento que geralmente está associado a outras deficiências e é facilmente confundido com deficiência mental. As causas ainda não foram descobertas, mas, ao contrário do que se imagina, é possível evitá-lo. A palavra “autismo”, atualmente pode ser associada a diversas síndromes, o que aumenta a possibilidade do autista ser considerado portador de deficiência mental. É, na verdade, um transtorno do desenvolvimento e quem o possui, apresenta em muitos quadros, quociente de inteligência (QI) abaixo da média. É um transtorno que não escolhe classes sociais e econômicas, ocorrendo no mundo inteiro. Embora haja grupos de estudos e pesquisas no mundo inteiro, ainda não foi detectada a causa do autismo. Em cooperação internacional, os especialistas concordaram em usar alguns critérios de comportamento para diagnosticar o autismo. Os sintomas variam amplamente e manifestam-se de diversas formas, variando do mais leve ao mais alto comprometimento.

Atualmente há duas publicações que descrevem os sintomas que levam ao diagnóstico da pessoa autista. Uma é o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-IV), da Associação Psiquiátrica Americana ; e a outra é a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial de SaúdeCaracterizado por alterações no desenvolvimento infantil que manifesta-se nos primeiros meses de vida, o autismo é um distúrbio congênito caracterizando-se por um retrocesso das relações interpessoais e diversas alterações de linguagem e dos movimentos. Sintomas estes são reconhecidos principalmente entre os 6 e os 36 meses de idade. As causas podem estar associadas a fatores genéticos e problemas pré e pós-parto.

As crianças autistas possuem, geralmente, aspectos saudáveis e são bonitas (uma das características mais marcantes).
A perda do contato emocional e interpessoal é o processo básico deste sintoma. Problemas de sociabilidade, isolamento intenso e agressividade. Observa-se que as crianças não respondem as carícias, palavras e nem às atenções dos adultos. Em contraste com a apatia frente às pessoas, a criança parece fascinada por objetos giratórios. Preocupa-se com que o ambiente fique conservado de forma inalterada. Passa muito tempo jogando com objetos repetitivamente. É indiferente às palavras e a qualquer som emitido por outras pessoas. Porém pode dar atenção ao ruído de uma porta ou ao barulho de um avião. Possuem hipersensibilidade ao toque e aos sons.

Mais comum no sexo masculino, a ocorrência do autismo é de uma em cada 2.500 crianças. Os graus variam do autismo clássico, mais grave, à síndrome de Asperger, bem mais leve. Abrange de uma criança muda, retardada e agressiva a “gênios”, como Mozart, que teria todas as características de Asperger. A cura ainda não há. Retardo mental ocorre em 80% dos casos. Cerca de 15% das crianças autistas quando estimuladas adequadamente, conseguem uma recuperação social, na idade adulta, que os permite viver com certa independência assistida e até trabalhar. Uns 25% dos autistas alcançam um desenvolvimento parcial menos significativo, impondo que vivam bem na casa de seus familiares, com sinais evidentes de autismo, sem capacidade de trabalhar e viver independentemente. Aproximadamente 60% das crianças autistas, por vários fatores, não conseguem obter um desenvolvimento satisfatório.

Nas anomalias de linguagem existem: repetição em eco das palavras que lhe são dirigidas; repetição de uma palavra ou de um grupo de palavras, sem significação afetiva; o uso da palavra “sim” representa uma dificuldade freqüente, como se indicasse um envolvimento com outras pessoas; apresentam problemas na aprendizagem dos pronomes “eu”, “tu” e “nós”, utilizando-os de maneira desorganizada; dificuldade de comunicação, mutismo, inversão pronominal (troca o “eu” por “você”), incompreensão da linguagem figurativa. Já nas anomalias motoras podem permanecer imóveis durante um tempo prolongado; movimentos com as mãos e braços no vazio, sem qualquer significado; distúrbios de comportamento, atos rituais, estereotipados, repetição de um mesmo movimento, com o tronco para frente e para traz; caminhar rígido ou em círculos, com os braços apertados sobre o corpo; obsessão por uma atividade, desenham ou jogam xadrez por horas a fio compenetrados.

Eventualmente casos de crianças autistas serem diagnosticadas como surdas-mudas, devido ao fato de não comunicarem-se verbalmente e levando a crer que nem conseguem ouvir. Há provas demonstrando que o autista possui a sua capacidade auditiva intacta. Os surdos-mudos, por outro lado, buscam um relacionamento com outras pessoas expressando-se mediante gestos, indicando necessidades e desejos. Usa sons vocálicos desarticulados com finalidade comunicativa. Nos casos de síndromes de traumas cranianos não verificam-se as alterações de linguagem e de movimento que ocorrem nos autistas e nem de bloqueio da afetividade. Nas crianças com trauma craniano podem ocorrer paralisias, movimentos desarticulados, atrofias musculares, deformações no crânio, incapacidade de concentração por muito tempo que são sintomas ausentes nos autistas. Os portadores de afasia procuram relacionar-se com outras pessoas, apesar de não possuírem capacidade para expressarem-se através da linguagem. Nos casos de síndrome pós-encefálicas, são observados sintomas freqüentes de desordens do comportamento social, irresponsabilidade, reações emocionais impulsivas e ocasionalmente sinais neurológicos.

O tratamento convencional de crianças autistas consiste em psicoterapia individual ou de grupo, como Ludoterapia ou Musicoterapia.  O autista pode ser tratada e desenvolver suas habilidades de uma forma mais intensiva do que outra pessoa que não apresente o mesmo quadro e, então, assemelhar-se muito a essa pessoa em alguns aspectos de seu comportamento. Porém, sempre existirá dificuldade nas áreas atingidas pelo autismo, como comunicação e interação social, podendo desenvolver comunicação verbal, integração social, alfabetização e outras habilidades, dependendo de seu grau de comprometimento e da intensidade e adequação do tratamento que, em geral, é realizado por equipe multidisciplinar nas áreas de Fonoaudiologia, Psicologia, Educação Física, Musicoterapia, Psicopedagogia, Neuropsicologia dentre outras mais.

Autor: Jecely Teixeira – CRP 06/115303

Amnésia Dissociativa

A amnésia sendo um fenômeno patológico, não pode ser confundida com esquecimento, pois ela é a incapacidade de recordar eventos e pode ser ocasionada por lesões na cabeça ou intoxicação alcoólica. A perda da memória é o principal aspecto, usualmente para eventos recentes importantes, graves o suficiente para serem tomados como simples esquecimento devendo ser comprovada a impossibilidade de uma causa orgânica como medicamentos ou problemas cerebrais. Costumam acontecer eventos pós-traumáticos como acidentes ou perdas inesperadas e na maioria das vezes o paciente sabe que perdeu parte da memória. Os adultos jovens, os adolescentes e as mulheres são os mais acometidos por esse problema. Em certos casos, psicoterapias podem também fazer com que o paciente se conscientize do que presenciou. Já a dissociação, é uma divisão na consciência que permite alguns pensamentos e comportamentos ocorram ao mesmo tempo que outros. É um mecanismo de defesa psicológico no qual a identidade, a memória, as idéias, os sentimentos ou as percepções são separados da percepção consciente e não podem ser recuperados ou vivenciados voluntariamente. Todo mundo dissocia ocasionalmente, um indivíduo pode vivenciar um conflito interno tão intolerável que a sua mente é forçada a separar as informações e os sentimentos incompatíveis ou inaceitáveis procedentes do pensamento consciente.

A amnésia dissociativa começa como uma reação a um estresse psicológico intolerável, acredita alguns psicólogos. As pessoas com amnésia podem ficar um tanto desorientadas e podem esquecer quem são, mas lembrarão como dirigir, contar e falar. As causas: a)Estresse (experiências traumáticas vivenciadas ou testemunhadas, situações de estresse importantes na vida ou conflitos internos graves); b) Abusos físicos: experiências sexuais ou situações emocionalmente avassaladoras, nas quais ocorre ameaça de lesão ou morte (p.ex., estupro, combate ou desastre naturais, como incêndios ou inundações); c) Morte: situações de maior estresse na vida incluem o abandono, a morte de um ente querido e a ruína financeira; d) Angústia: A preocupação gerada por impulsos de culpabilidade, as dificuldades aparentemente insolúveis ou o comportamento criminoso também podem acarretar a amnésia.  O sintoma mais comum de amnésia dissociativa é a perda da memória. Logo após de se tornar amnésico, o indivíduo pode parecer confuso. Muitos indivíduos amnésicos apresentam certo grau de depressão e a maioria se torna muito angustiado com a amnésia. Outros sintomas e preocupações dependem da importância das informações esquecidas e de sua conexão com os conflitos pessoais ou das conseqüências do comportamento esquecido. Para estabelecer o diagnóstico, o médico realiza um exame físico e neurológico, alguns ainda levam também para exames psiquiátricos. São realizados exames de sangue e de urina para se verificar a presença de alguma substância tóxica (p.ex., uma droga ilícita) que possa ser a responsável pela amnésia. Um eletroencefalograma é capaz de determinar se a causa é um distúrbio convulsivo e os testes psicológicos e neuropsicológicos especiais também ajudam o médico a caracterizar as experiências dissociativas do paciente.

É primordial uma atmosfera de apoio na qual o indivíduo sinta-se seguro, geralmente, apenas esta medida acarreta uma recuperação espontânea gradual das lembranças perdidas. Se a memória não for recuperada espontaneamente ou se a sua recuperação for urgente, as técnicas são freqüentemente bem eficazes como determinados medicamentos que facilitam a entrevista, o médico interroga o paciente sobre o seu passado. O médico e o psicólogo devem ter muito cuidado porque as circunstâncias que estimularam a perda de memória podem ser recuperadas no processo e isto pode ser muito perturbador. Não é possível supor que as recordações recuperadas por meio dessas técnicas sejam exatas. O tratamento contínuo ajudará o indivíduo a compreender o trauma ou os conflitos que causaram o distúrbio e a encontrar meios para solucioná-los. A maioria dos indivíduos recupera o que parece ser suas recordações perdidas e soluciona os conflitos responsáveis pela amnésia. Entretanto, alguns nunca conseguem romper as barreiras que impedem a reconstrução do seu passado perdido. O prognóstico é determinado em parte pelas circunstâncias da sua vida, particularmente o estresse e conflitos que provocaram a amnésia.

Autor: Jecely Teixeira – CRP 06/115303

Compulsão pela Internet

O uso do computador é um instrumento de informações e experiências relativamente novo na vida das pessoas. Tudo que você procura, precisa ou gosta, pode encontrar na internet: das coisas mais bizarras, até informações de utilidade pública. Muitas inovações têm surgido e observamos um aumento vertiginoso do uso da internet.

Assim, como tudo na vida, tem quem faça bom ou mau uso deste recurso. O tempo que a pessoa fica na frente do monitor é importante, mas não é suficiente para justificar o diagnóstico de dependente da internet.

Definimos compulsão pela internet quando a pessoa:

Passa muito tempo na Internet, inclusive perdendo muitas horas de sono.

Negligencia suas responsabilidades e necessidades familiares, pessoais, profissionais de forma reiterada.

Apresenta prejuízos conseqüentes do uso patológico da internet.

Sente grande angústia ou ansiedade na ausência ou na impossibilidade de estar no computador.

Nega, mente ou manipula as pessoas para não ser criticada e continuar mais tempo na internet.

Não há uma causa bem estabelecida para a ocorrência de comportamentos compulsivos.

Pode-se falar em vulnerabilidades e predisposições, seja de elementos familiares, tais como os hábitos conseqüentes à extrema insegurança e aprendidos no seio familiar, seja por razões individuais e relacionados às vivências do passado e a ao dinamismo psicológico pessoal, seja por razões biológicas, de acordo com o funcionamento orgânico e mental.

Comportamentos compulsivos ou aditivos podem ser entendidos como atitudes (maladaptadas) de enfrentamento da ansiedade e/ou angústia, trazendo conseqüências físicas, psicológicas e sociais graves.

Pessoas com alguma dificuldade de relacionamento social, fóbicas, tímidas demais ou com quadros depressivos, em contato com o computador, acabam abusando de seu uso o que acarreta prejuízos em sua vida social, financeira e até profissional. Ao longo do tempo, desenvolvem a compulsão na qual substituem a interação da vida real por salas de batepapo e sites de relacionamento social.

Algumas dicas podem ajudar a ter o controle sob o uso da internet:

1. Seja consciente. A falta de crítica e grande desconsideração quanto aos fatores de risco nos deixam indefesos quanto aos perigos que a internet oferece à saúde integral, ou seja, saúde física, emocional, familiar, social e profissional.

2. Não espere ter problemas de saúde para tomar atitudes. A visão imediatista e a falta de reforço positivo de curto prazo fazem com que a necessidade em manter comportamentos que favoreçam a saúde seja ignorada.

3. O estilo de vida é adquirido dentro do ambiente familiar. Pais ou irmãos mais velhos fumantes, obesos, alcoólatras entre outros, influenciam diretamente na aquisição de comportamentos de risco.

4. Freqüentes conflitos, a falta de supervisão dos pais e mensagens inconsistentes são grandes influenciadoras de comportamentos compulsivos.

5. Preconceito. Pessoas com sintomas não encontram motivo suficiente para buscar os serviços médicos para a orientação e/ou tratamento.

6. Fatores sociais e culturais são tentadores para esta nova patologia. Temos toda a tecnologia à disposição das pessoas. Não há mais motivação para buscar a conexão pessoal já que uma simples tecla poderia aparentemente sustentar tal necessidade.

O fato é que a busca pelo prazer nos move; tendemos a repetir ações agradáveis e às vezes é nesse prazer que encontramos uma forma de fugir das dificuldades. O problema é quando o “gostar muito” se transforma em dependência, e o prazer se transforma em dor.

Autor: Dorit Wallach Verea

Luto Patológico

A origem da palavra Luto vem do latim Lucto, que significa sentimento de pesar pela morte de alguém e por ser um processo tem começo, meio e fim, que tem seu pico de intensidade na hora em que se perde o ente querido e vai decrescendo até tornar-se uma lembrança. Porém, quando esse processo não se finaliza e se perpetua, impedindo que o indivíduo retorne as suas atividades cotidianas, ele dá início ao que chamamos de Luto Patológico.

Esse tipo de luto é divido em:

• Luto Crônico: tem duração excessiva e nunca chega a um término satisfatório.

• Luto retardado ou ausente: apesar de uma reação normal a essa perda, ainda assim não foi o suficiente para superá-la. E em outra situação de luto, a emoção expressa mostra-se desadaptada a perda atual.

• Luto Severo: é a intensificação do luto.

Segundo Parkes (1996), a perda pode ser vista como ‘um choque’. Assim como no caso do machucado físico, o ‘ferimento’ aos poucos se cura, porém, podem ocorrer complicações e a cura é mais lenta ou outro ferimento se abre naquele que estava quase curado. Nesses casos surgem as condições anormais, que podem ser ainda mais complicadas com o aparecimento de outros tipos de doenças.

Os determinantes que podem fomentar um luto patológico, segundo Worden (1991), são:

1. Quem era a pessoa;

2. A natureza da ligação;

3. Forma da morte;

4. Antecedentes históricos;

5. Variáveis de personalidade e

6. Variáveis sociais.

Uma das possíveis causas dessa patologia é o luto adiado ou negado. Para Parkes (1996), no luto adiado as reações imediatas à morte não são apresentadas e são provocadas mais tarde por eventos que não teriam força para tanto. E no luto negado, o enlutado não entra no processo de luto, age como se nada tivesse acontecido , negando todos os sinais de sofrimento e dor. Além disso, muitas pessoas têm a sensação de que se elas deixassem de sofrer ou não mais pensar em seu ente querido, ele “pensará” que o enlutado não o ama mais.

No processo de luto normal, isto é, após a morte de um ente querido, sentimentos de ambivalência fazem parte desse processo que se finaliza com a aceitação da realidade e elaboração da dor dessa perda, assim como reajustar-se em um ambiente sem a pessoa falecida.

Segundo Parkes (1970), o enlutado passa por quatro fases de elaboração do luto: torpor, anseio, raiva e reorganização. Durante esse processo é comum encontrar os seguintes sintomas como manifestações do luto normal:

Sentimento:

• Choque

• Tristeza

• Culpa

• Raiva e Hostilidade

• Solidão

• Agitação

• Ansiedade

• Fadiga

• Anseio

• Desamparo

• Alívio

Sensações Físicas:

• Vazio no Estômago

• Aperto no Peito

• Nó na Garganta

• Hipersensibilidade ao Barulho

• Sensação de Despersonalização

• Falta de Ar

• Fraqueza Muscular

• Falta de Energia

• Boca Seca

• Queixas Somáticas

• Suscetibilidade a Doenças

Comportamentos

• Distúrbio de Sono

• Perda / Aumento do Apetite

• Aumento do consumo de Psicotrópicos,

• Álcool e Fumo

• Comportamentos “Aéreos”

• Isolamento Social

• Evitar coisas que lembrem a pessoa que

• faleceu

• Procurar e chamar pela pessoa

• Hiperatividade / Inquietação

• Sonhos com a pessoa falecida

Cognições

• Descrença

• Confusão, déficit de memória e

• concentração

• Pensamentos Obsessivos

• Sensação da presença do falecido

• Alucinações

Muitos dos sintomas relacionados ao luto se assemelham aos da depressão e o diferencial para esse diagnóstico é a preservação da autoestima, contrariamente encontrada na depressão. Não se pode diagnosticar uma Depressão Maior antes dos dois meses de luto, ainda que a sintomatologia clínica corresponda a isso. A prorrogação ou a intensificação dos sintomas acima descritos fazem parte dos critérios diagnósticos para o luto patológico.

É possível reconhecer que alguém está passando por um luto patológico se após a morte, o enlutado persistir no processo de luto e apresentar os seguintes sinais e sintomas:

• Memórias espontâneas ou fantasias intrusivas relacionadas com a pessoa perdida;

• Fortes períodos de emoção relacionada com a pessoa perdida;

• Anseios ou desejos fortes e perturbadores de que o (a) falecido (a) esteja presente;

• Sentimentos de intensa solidão e de vazio;

• Afastamento radical das pessoas ou locais que recordam o falecido;

• Distúrbio do sono e Perda de interesse pelas atividades profissionais, sociais e cotidianas.

O Luto Patológico deve ser tratado pelo psicólogo que o auxiliará na elaboração do luto e pelo psiquiatra, pois devido ao agravamento dos sintomas o uso de psicofármacos geralmente se faz necessário.

Esse processo de cura se dá após o reconhecimento e aceitação da morte ocorrida e, também, com a retomada do controle de suas emoções e problemas que essa perda ocasionou ao enlutado. O luto aparentemente resolvido pode deixar marcas que se manifestarão ao longo de toda a vida.

“Só se perde aquilo que se tem…” (Parkes, 1996)

Régis Siqueira Ramos é Psicólogo Cognitivo Comportamental, aluno especial de mestrado pelo NIPPEL/HCFMUSP –Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Luto.

Autor: Régis Siqueira Ramos

De perto ninguém é normal

Quando se fala em doença mental, a primeira imagem que vem à cabeça é a do louco de carteirinha – que não fala coisa com coisa e costuma ter acessos de fúria só controláveis por camisa-de-força ou calmantes potentíssimos. É uma visão parcial e marcada pelo preconceito.

O universo desse tipo de enfermidade é bem mais amplo.

Milhões de homens e mulheres ao redor do mundo são afetados por esses problemas, mas pouquíssimos procuram ajuda. Por dois motivos: boa parte prefere esconder seu sofrimento, com medo de ser estigmatizada, e a maioria nem sequer desconfia de que seus sintomas são de um transtorno mental tratável. Com isso, distúrbios leves, de cura relativamente fácil, podem transformar-se em problemas crônicos e incapacitantes.

Os transtornos de ansiedade, a depressão e os transtornos de pânico são patologias reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde. Atingem atualmente 10% dos homens e 20% das mulheres em todo mundo, estatística que tende a dobrar até 2020. Atualmente são a segunda maior causa de pedido de licença médica e de aposentadoria no planeta como doença incapacitante para o trabalho.

Os quadros de depressão dividem-se em leves, moderados ou severos. Um deprimido severo, por exemplo, padece de falta de energia para executar as tarefas mais simples e não vê graça em nada. Sua auto-estima despenca e um inexplicável sentimento de culpa passa a atormentá- lo. Ele tem crises de choro repentinas e pode ser tomado por dores sem causa orgânica definida. Seu padrão de apetite e sono oscila além do razoável. Nos casos mais graves, são recorrentes os pensamentos sobre a própria morte, sendo que cerca de 15% das vítimas cometem suicídio. É um tormento do qual é difícil enxergar a saída.

A maioria de nós não teria nenhum problema moral em tomar uma medicação para dor de estômago ou infecção urinária. Quando se trata de uma indicação para psicoterapia ou prescrição de medicação psiquiátrica a questão já não é tão simples.

As pessoas não são robôs nem têm controle absoluto de suas emoções. A riqueza e complexidade de nossas vidas são imbuídas de sonhos, fantasias, medos e inseguranças inerentes ao ser humano.

Portanto, o que é normal e o que não é? O que é tristeza? O que é depressão? Quantas vezes nos pegamos dizendo “estou deprimido” quando na verdade estamos apenas entristecidos, mais frágeis, possivelmente carentes?! Quem nunca se pegou fazendo um balanço da vida e percebendo que muitas das mudanças significativas foram mobilizadas a partir de uma intensa dor emocional? Aliás, que mudanças na vida se processam sem uma dose de crise? E quando estas crises necessitam de ajuda profissional?

Não somos super-heróis nem superfracassados. Acertamos, erramos, temos dias de alegria e dias de tristeza. Todos nós temos lá nossas manias inconfessáveis, nossos comportamentos inadequados, incoerentes e recorrentes que juramos nunca mais repetir. Quando o sofrimento emocional ou comportamento inadequado atrapalhar de alguma forma nossa rotina ou gerar dúvidas é aconselhável procurar um profissional especializado que poderá avaliar a necessidade ou não de ajuda medicamentosa e/ou psicoterapêutica.

Na maioria das vezes procuramos ajuda por um momento de fraqueza e acabamos por rever crenças que nos fragilizavam e escondiam recursos disponíveis que tínhamos, sem perceber, para vencer obstáculos que antes julgávamos intransponíveis. Portanto, muitas vezes loucura é não procurar ajuda.

Autor: Dorit Wallach Verea / Gabriela Garrido

Nova lei descriminaliza o usuário de drogas

O preconceito da sociedade é um dos principais obstáculos na recuperação de dependentes

A aprovação da lei 11.343 no último dia 24 de agosto tem provocado diScussão entre juristas, sociedade e especialistas. Polêmica, a lei descriminaliza o usuário de drogas, prevendo penas mais leves e alternativas. Para alguns, a medida pode incentivar e aumentar o uso indiscriminado. Já quem trabalha com a recuperação de dependentes químicos tem uma outra opinião: demos um passo à frente, foi um avanço para um tratamento mais humano e menos preconceituoso e marginalizante.

Ter um membro da família envolvido com drogas pode ser um problema sério não só para o usuário, mas para todos de seu convívio. Parentes se comovem, revoltam e precisam arrumar forças para ajudar o dependente a superar seu vício. Como facilitar a busca de ajuda e tratamento? Como manter o dependente químico no tratamento? Como estabelecer condições para evitar uma recaída? São questões complexas cujas respostas agora podem ser facilitadas. Cabe agora à sociedade uma reflexão menos moralista e mais analítica sobre o uso de drogas. A lei porsi só não muda a cultura da sociedade.

A marginalização do usuário ou dependente é um fator que dificulta – e muito – na aceitação do problema e funciona como uma barreira na procura de ajuda para superar a dependência.

O tratamento do dependente químico é um desafio complexo que vai desde a negação do problema, a dificuldade de buscar ajuda, o alto índice de abandono do tratamento e o seguimento das orientações. Essa descriminalização permitirá um diálogo mais aberto entre clínicos, pacientes, família e sociedade e assim diminuirá o impacto emocional que a dependência causa em todos esses nichos.

A Família

É comum observar-se durante o processo evolutivo da dependência química o stress que toma conta dos membros da família, suas mudanças, e como, com o tempo, desenvolvem uma adaptação às situações de tensão às quais são “submetidos”. Algumas famílias estruturam suas relações em torno da droga, alterando na rotina, nas festas, férias, reuniões familiares e até nas questões básicas referentes ao sono e alimentação. A auto-estima da família é afetada, aumentando a ansiedade, as dificuldades de produção e do relacionamento social que podem causar um isolamento social progressivo da família. Além das mudanças de comportamento, como usar drogas era crime é comum a sensação de rejeição pessoal, vergonha e humilhação perante a sociedade. Sentem-se isolados, alienados e diferentes, com um grande sentimento de desesperança. Com o tempo os membros da família do dependente químico percebe m que não estão resolvendo a situação, o caos est á se concretizando e seu limite já passou faz tempo. Temendo por sua sanidade e com sentimento de desesperança percebem que algo deve ser feito.

Em virtude dessa realidade é que profissionais especializados desenvolveram um programa de atendimento e orientação para familiares de alcoolistas e drogadictos. Ao procurarem orientação, os familiares encontram um espaço de reflexão sobre certos padrões repetitivos que desenvolveram ao se adaptarem à problemática da dependência e que resultaram numa dinâmica familiar patológica. Diversos tópicos como estabelecimento de limites, regras de conduta e valores das famílias são trabalhados com um objetivo primordial: o desenvolvimento de um ambiente familiar onde não há espaço para a doença e na qual o dependente se sinta compelido a procurar ajuda. O envolvimento de todos os membros do sistema familiar no tratamento é fundamental para que ocorram modificações estruturais que tenham resultados positivos na recuperação do drogadicto. É inquestionável a influência e o poder do sistema familiar no seu processo de recuperação.

Autor: Dorit Wallach Verea

Alcoolismo em mulheres

O consumo abusivo e/ou a dependência do álcool traz, reconhecidamente, inúmeras repercussões negativas sobre a saúde física, psíquica e social da mulher, assim como um maior risco relativo ao suicídio e acidentes fatais entre aquelas que consumem acima de três doses diárias de bebidas alcoólicas.

De forma ampla, as mulheres enfrentam uma série de barreiras para chegar e permanecer no tratamento, seja estruturais (falta de creche e ajuda legal), pessoais (falta de emprego e dependência financeira) e/ou sociais (estigma social e oposição do companheiro)

Ao avaliar os relatos de problemas associados ao álcool entre as mulheres, observa-se que mesmo que o consumo de álcool seja realmente menor entre elas, seu impacto pode ser maior que entre os homens. Entretanto, a identificação do alcoolismo feminino em atendimentos primários de saúde ainda é deficiente e pouco valorizada. Muitos médicos, apesar de evidências clínicas, por questões “morais” não perguntam a respeito do padrão de uso do álcool das mulheres.

Até algumas décadas atrás, o início e o aumento do consumo de álcool entre as mulheres era, em geral, mais tardio. Hoje o consumo está cada vez mais próximo ao padrão masculino.

Atualmente, o perfil é o de uma mulher de 18 a 25 anos, e que bebe ou começa a beber pelas suas relações sociais ou profissionais.

O problema a destacar é que a mulher é muito mais susceptível aos efeitos nocivos do álcool. Tomando a mesma quantidade, o álcool prejudica mais a mulher do que o homem e a sua toxidade mostra-se não só no fígado como igualmente nos outros órgãos.

O que se mantém é ocorrência de maior prevalência de transtornos depressivos, de ansiedade, além de abuso de barbitúricos, analgésicos e tranqüilizantes. Muitas mulheres alcoolistas comportam-se como se estivessem praticando auto-medicação, pois obtêm através do álcool uma sensação, de poder e de liberdade além de alívio de tensões.

É importante saber que muitos bebês com anormalidades neonatais são filhos de mães alcoolistas. O risco de uma mulher alcoolista ter um filho com anormalidades no desenvolvimento físico e mental aproxima-se de 35%. O problema é que não é incomum a mulher dependente de álcool deixar temporariamente de menstruar e só perceber que está grávida quando sente os movimentos da criança.

Este problema diz respeito a todos.

Como forma de enfrentar essas questão complexa e multifacetada vem-se propondo o desenvolvimento de programas específicos para mulheres. Isto significa desenvolver e implementar estratégias integradas que sejam particulares e responsivas às necessidades do gênero feminino.

Autor: Dorit Wallach Verea

A vida não é uma academia

“Mente sã em corpo são” é uma frase sábia e famosa. Porém, é notória a depressão oriunda do “excesso de vida mental” dos sedentários intelectuais, mas, se ignora totalmente o desequilíbrio oposto; a depressão advinda do “excesso de vida corpórea”. Cada vez mais as pessoas colocam seu corpo no centro de suas vidas: horas de ginástica, competições, dietas contínuas, tratamentos estéticos e excesso de atividades saudáveis ligadas ao corpo físico.

Tempo, energia e criatividade são investidas e direcionadas ao corpo e, no entanto, o aspecto mental e psicológico da vida é ignorado.

Esse desequilíbrio no passado era inócuo, mas na complexidade da vida moderna não
conhecer a si próprio é muito perigoso.

A capacidade emocional e as funções psíquicas necessárias para elaborações não se
desenvolvem sozinhas, são cultivadas. Frente a um evento negativo (por ex. separação,
conflitos, desilusões) estas pessoas entram muito mais facilmente em crises depressivas
justamente pela falta de “instrumentação psicológica”.

Outras vezes, também, é a própria mente que, na falta de eventos negativos, pede atenção
produzindo a crise que rompe o fanatismo corpóreo e oferece assim a oportunidade de um reequilíbrio.
São depressões complexas que exige identificar as necessidades e conflitos específicos daquele indivíduo naquele momento.

Para despertar a auto-percepção basta tomar algumas atitudes aparentemente simples como, por exemplo:

· Dedicar um tempo para leitura do tipo introspectiva, músicas meditativas, CD de
relaxamento, filmes existencialistas (não de ação ou terror);

· Encontrar momentos, mesmo breves, para ficar só sem fazer nada.

Para quem não pára, parece difícil, mas não se cresce nem se sai de uma crise de uma hora para outra, com qualquer pílula mágica ou com métodos instantâneos.

Ao anestesiar o sofrimento e adiar os conflitos, potencializando desesperadamente as
atividades físicas haverá uma maior probabilidade de desembocar numa queda pior que a
própria dor submersa.

Relembramos então uma frase de Buda: “O melhor caminho é sempre o do meio”.

Autor: Dorit Wallach Verea

Sobre o tempo e a eternidade

Por essas e outras é que somos fãs de carteirinha desse cara..
“Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental.
Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para
pensar para me arrepender.
Percebi que nada sabia.
Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista,
tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a
minha alma.
Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski.
E logo me assustei.
Nietzsche ficou louco.
Fernando Pessoa era dadoà bebida.
Van Gogh matou-se.
Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com
tanta angústia.
Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
Maiakoviski suicidou-se.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental?
Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa…
Não, saúde mental elas não tinham…
Eram lúcidas demais para isso.
Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.
Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.
Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa.
Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra  denomina-se software, “equipamento macio”.
Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.
O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e
são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades
levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também.
Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou.
Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.
Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos,
somente símbolos, podem entrar dentro dele.
Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos eles podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, pastores, amigos e até mesmo psicanalistas…
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade
que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco?
Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica
excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.
Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou…
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias.
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware.
Cuidado com a música…
Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura
especializada em impedir o pensamento.
Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…”
Rubem Alves.
Sobre o tempo e a eternidade.
Campinas: Ed. Papirus, 1996
Autor: Rubem Alves.