Como ajudar o parceiro dependente químico

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O tratamento da dependência química é permeado por muitos paradoxos: droga é ruim, mas é boa; o dependente quer ter controle sobre o uso e não parar; a família ajuda e atrapalha, e por aí afora.

Para o parceiro ou familiar, a confusão não é menor no que tange aos paradoxos. A começar pelos seus próprios sentimentos pelo dependente, que vão do terno amor ao ódio irracional em minutos.

Assombrado por miríades de sensações contraditórias e perturbadoras, o familiar toma inúmeras atitudes a fim de conter o vendaval que é o uso da droga. Estressado, ele passa a cuidar sozinho da casa, filhos e orçamento financeiro;ao mesmo tempo,tenta reiteradas vezes fazer o dependente químico parar de usar: seduz, agride, argumenta, chora, cuida e esconde a situação do resto da família.

Assumir todos esses compromissos pode não ser insalubre para outro tipo de doença, porém, asestratégias em relação à dependência química são bem diversas das que se utiliza com sucesso em outros quadros clínicos, quando poupar o paciente e deixá-lo descansando lhe ajuda na restituição física.

A família é importantíssima em todo o processo, afinal,todo familiar tem seu poder.

A questão bizarra da codependência – nome utilizado por algumas correntes da psicologia para denominar o familiar/amigo/parceiro envolvido com o dependente – é o fato de que o companheiro ou companheira acaba também por se tornar dependente desse modo de vida, já que se adaptou e passou a obter alguns ganhos com essa situação. Estes lucros são de ordem pra lá de neurótica, e a psicanálise os chamou de ganhos secundários da doença. O que seria esse lucro? A sensação de ser hipernecessário para o dependente, ter o controle da casa, ser o entendedor máximo do assunto e, principalmente, não ter tempo, energia ou necessidade aparente de identificar suas questões pessoais.

A melhor maneira de ajudar o parceiro dependente químico requer coragem e o resultado, por sua vez, pode ser bem mais doce do que o sal que vem sendo sua vida.

Algumas dicas para o codependente: – Apropriar-se de suas escolhas, pois a tendência é justificar suas atitudes inadequadas em virtude da doença do dependente. – Avaliar-se, em vez de ditar regras muitas vezes inexequíveis e fantasiosas para o parceiro. Não temos o domínio da vida do outro. – Buscar tratamento para si, pois as sequelas da dependência atingem diretamente a saúde mental do parceiro. Muitas vezes, o tratamento começa dessa forma. – Ir a uma reunião de Alcoólicos Anônimos (AA) ou de Al-Anon (para familiares) para ver como pessoas mais instruídas sobre a doença estão agindo e vivendo suas próprias vidas.

Ajudar profissionalmente o codependente constitui sempre um desafio porque seu paradoxo básico é: “Eu estou mal, mas preciso muito de ajuda para mudar o outro, sendo que quero continuar fazendo do meu jeito mesmo que meu jeito não esteja dando certo”.

A fraqueza é a força. O parceiro que tem a coragem de mergulhar em si mesmo tem grandes chances de amar ao próximo como ele é – podendo escolher ficar ou não ao seu lado. Ao se afastar com coerência, poderá causar grande bem ao dependente químico que, quem sabe, se utilizará desse abandono para repensar a vida. Se, por outro lado, ficar na posição de mártir sofredor, a chance de cada um se afundar em sua própria dependência é enorme. O codependente, muito certo de suas próprias ideias, constitui um perigo para si mesmo e para o próximo.

Dorit Wallach Verea é psicóloga, coordenadora da Clínica Prisma, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e especialista em Dependência Química pelo Instituto Sedes Sapientiae. É também especialista em Psicologia Psicossomática pela Universidade Paulista/SP.

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