Mulheres que confundem amar com sofrer

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“Queria muito ter um companheiro, mas tenho preguiça de começar tudo de novo, de conhecer alguém, de viver decepções de novo, amar é tão perigoso.”

O amor, assim como o trabalho ou a família, pode assumir um caráter de sofrimento ou bênção, dependendo da qualidade da relação estabelecida. Qualquer casal pode passar por percalços ou fases difíceis, mas se o sofrimento é a tônica de seu relacionamento, cuidado: talvez você esteja vivendo um amor destrutivo e, o que é pior, pode estar, de certa forma, dependente dessa dor.

O tipo de experiência que você vive já foi projetado ou aceito no seu repertório presumido de possibilidades. Ou seja, se você está vivendo uma relação sofrida, provavelmente aceitou inconsciente e afetivamente que amor e sofrimento podem caminhar juntos. Caso tivesse a certeza inequívoca de que amor nada tem a ver com dor, possivelmente teria aberto mão da relação quando seus primeiros sinais neuróticos tivessem emergido.

Caso você seja fruto de uma relação sofrida, uma boa parte do seu sistema de valores pode entender como “normal” as desavenças, as agressões, os tumultos e as frustrações de uma relação amorosa. Com esse histórico, você pode ter desenvolvido uma tendência à autodestrutividade, e aí não sofre só na relação, mas também no trabalho, com amigos, no exercício da maternidade, na relação com seu corpo e por aí afora.

Seja como for, se seu relacionamento afetivo é sinônimo de sofrimento, talvez você precise pensar em algumas questões, a título de salvar sua vida:

1. Estou nessa relação porque acredito nela ou porque não consigo aceitar o fato de que ela não é aquilo que busco? Estou sendo realista ou ando agindo como uma criança mimada que não abre mão de sua fantasia?

2. Me relaciono com esta pessoa específica porque a amo, admiro, ou porque tenho medo de ficar sozinha? E, se for isso, vale pensar: o que significa para você estar sozinha? Não pode ser bom às vezes?

3. De onde tirei a ideia de que amar é igual a sofrer? Se for um ensinamento de sua família, outra questão urge: quero perpetuar essa herança ou prefiro reescrever minha história em outras bases?

O primeiro passo para mudar o padrão de sofrimento em sua vida é não aceitá-lo como “normal”.

Cada vez que um conceito é modificado dentro de nós, essa mudança invariavelmente se manifesta nas diversas áreas de nossa vida, mais cedo ou mais tarde. Por exemplo: se você tiver certeza absoluta de que merece ser bem tratada, bem cuidada e bem amada, não aceitará qualquer proposta que não lhe ofereça os atributos de amor, cuidado e bom tratamento. Se você acreditar que seres humanos devem andar eretos, não aceitará que alguém determine que você deva rastejar – na verdade, vai querer se proteger de pessoas ou situações que a queiram rastejante.

Lição número 1: ninguém pisa em quem está de pé, levante-se.

Lição número 2: igualmente importante: se quer um “príncipe”, transforme-se primeiro em princesa – ame-se, tenha uma vida interessante com projetos de vida bacanas, cuide-se e tenha plena consciência de ser merecedora de amor, carinho, compromisso e afeto na mesma medida em que oferecer.

Lição número 3: será que você está recebendo do mundo o que oferece a ele, numa equação matemática? Se você for crítica demais, ácida demais, arrogante demais ou apresentar quaisquer outros predicados nocivos em demasia, talvez esteja recebendo do mundo todas as projeções que faz, vindas do seu próprio mundo interno – a um mundo interno talvez sombrio, carente de luz, de terapia, de um grupo de autoajuda, de um padre, de um bom livro pra começar o processo de mudança. O que importa é começar.

Porque, no final das contas, tanto faz se você vive um relacionamento autodestrutivo porque sua mãe era egocêntrica, seu pai bebia ou porque seus pais se estapeavam ou qualquer outra desgraça tenha acontecido na sua vida. No passado, as lembranças. No futuro, a esperança. E no momento presente, o trabalho. Mãos à obra para construir uma vida melhor. Viver bem dá trabalho, mas a recompensa vale, acredite.

Dorit Wallach Verea é psicóloga, coordenadora da Clínica Prisma, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e especialista em Dependência Química pelo Instituto Sedes Sapientiae. É também especialista em Psicologia Psicossomática pela Universidade Paulista/SP.

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