Relacionamento: o jeito de falar muda tudo

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Tudo é comunicação. O silêncio perante a fala do outro, a verborragia incessante, a retirada do recinto em meio a uma discussão acalorada, um olhar, um suspiro, uma crise de choro, tudo comunica algo.

Como se já não bastasse tal profusão de sinais emitidos, ainda convivemos com outra grande confusão: comunicar nem sempre garante que o ouvinte entendeu exatamente o que queríamos dizer, mostrar, denunciar. Visto que um mesmo objeto pode ser definido das mais variadas formas por pessoas diferentes, o processo de comunicação equivale a um imenso balaio de gatos em que o mais usual é que cada um permaneça preso aos seus modos particulares de ver o mundo, encaixando tudo o que ouve, vê e sente a este pano de fundo perene, à ideologia vigente dentro de si. Corremos o risco de ouvir mais a nós mesmos do que ao outro se não cuidarmos bem da questão.

No contexto da psicoterapia de casal, em que as queixas sobre o comportamento alheio costumam constituir as primeiras sessões, é imperativo que o terapeuta apresente certa habilidade para que as pessoas envolvidas migrem da posição de queixosas para regiões mais palatáveis – onde no lugar das críticas e exigências brotem pedidos.

Quando nos colocamos em uma posição crítica, é natural que o outro se defenda, faz parte dos mecanismos básicos de sobrevivência animal. Daí que, se de fato queremos resolver uma questão, é mais inteligente que, antes, nos acalmemos para que o outro inclusive tenha condições de entender o que este ou aquele comportamento nos causa no âmago. Se conseguirmos dizer o que nos machuca e pedir (e não impor) aquilo que está nos faltando, temos maiores condições de avaliar o relacionamento e a nós mesmos. Podemos averiguar se o companheiro ou companheira tem recursos para nos dar o que precisamos ou se, ao contrário, estamos sonhando com metas intangíveis.

Uma pergunta feita amiúde por terapeutas de casal é: você está interessado em ser feliz ou em ter razão? Se a vida for um tribunal em que se precisa estar certo o tempo todo para autoafirmação, costumo sugerir a “solteirice” – já que um salutar relacionamento a dois pressupõe inequivocadamente certa dose de renúncia. É preciso trocar as lentes próprias pelas do outro para que se consiga ver o mundo como o ser amado o vê, ou pelo menos próximo disso. Não está disposto a tal renúncia? Talvez seja o caso então de curtir uma solidão gostosa. Mas, se quiser transformar a si mesmo e a seu relacionamento, algumas dicas podem ser úteis.

A primeira delas é o uso da primeira pessoa do singular – eu. Quando afirmamos “você está acabando com a minha vida”, estamos atacando, culpabilizando e nos infantilizando – já que, surpresa, ninguém acaba com sua vida, foi você quem se deixou levar. Se dissermos “eu me sinto profundamente desrespeitado (a) quando você age assim”, a mensagem não é de ataque ou julgamento mas, isto sim, de posicionamento. E se conseguimos dizer “vamos tentar agir de outra forma para salvar o nosso relacionamento, ao qual prezo muito”, a mensagem é de amor. Mas não adianta ensaiar ou proferir frases feitas se o espírito ainda estiver imbuído do desejo de vencer a competição. É preciso se perguntar o quanto está disposto a contemporizar, pois uma frase romântica dissonante da atitude corporal, do tom de voz e da doçura (ou fel) do olhar gera o que mais comumente se vê em consultório: a mensagem dupla.

As mensagens duplas contêm um enorme poder de destruição. Quando se diz a um filho “eu não estou brava” aos berros, pode-se estar criando uma relação monstruosa, já que o germe da loucura se instala: devo acreditar no que mamãe fala ou na cara dela? E, se não está brava, por que gritou? Mas se eu não acreditar, quer dizer que mamãe é mentirosa? Mamãe sempre fala pra eu não mentir; provavelmente o errado sou eu – e eis um candidato a não acreditar em suas percepções no futuro, no melhor dos casos. E por aí vai. Dependendo das predisposições de cada um, o circo está armado, e muitas vezes graves quadros serão instalados a partir de uma suposta bobagem do dia a dia.

Nos relacionamentos afetivos, o rastro de destruição da mensagem dupla não é diferente. Portanto, sejamos claros e corajosos. Não é preciso (e nem indicado) um comportamento agressivo ou panfletário para dizer o que se quer dizer.

A relação ideal seria aquela em que nem precisamos falar o que necessitamos porque o outro, que nos observa com a lente do amor, já sabe antecipadamente. Já aconteceu de você estar com sede e começar a procurar discretamente por um copo d’água e uma alma gentil lhe oferecer a água, antes de você falar a qualquer um que estava com sede? Isso só foi possível porque o outro estava atento às suas necessidades e soube, até antes de você mesmo, que uma água fresquinha lhe cairia bem. Que tal observar se seu parceiro ou parceira está sedento em vez de focar única e exclusivamente nas suas necessidades? Um jogo de gentilezas mútuas normalmente comunica mais do que páginas de discurso.

Dorit Wallach Verea é psicóloga, coordenadora da Clínica Prisma, mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e especialista em Dependência Química pelo Instituto Sedes Sapientiae. É também especialista em Psicologia Psicossomática pela Universidade Paulista/SP.

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