vvvvDrogas: nem as empresas estão livres
Patrícia Bispo

"Comigo isso nunca vai acontecer". "Na minha família, problema como esse nem pensar". Seria tão bom assegurar que 100% desse positivismo fosse equivalente a uma equação matemática, onde 2 + 2 = 4, ou mesmo à lei terceira Lei de Newton - da Causa e do Efeito, onde toda ação gera uma reação. No entanto, a realidade da vida mostra que nem sempre é fácil ficar imune a determinados problemas como, por exemplo, a dependência química, seja por drogas consideradas legais (como álcool, ou tabaco) ou ilegais (como cocaína).

Sem escolher raça, religião, sexo, idade ou grau de instrução, a dependência química é um dos grandes problemas sociais que atinge todos os países do mundo, inclusive o Brasil. E quem imagina que o alcoolismo afeta somente o ambiente familiar, precisa ficar mais atento. Para se ter uma idéia, segundo a Associação dos Estudos de Álcool e Outras Drogas, de 3 a 10% da população brasileira fazem uso abusivo do álcool. Isso reflete diretamente no dia-a-dia das organizações, uma vez que o alcoolismo é considerado a oitava causa responsável pelas concessões de auxílio-doença. Já os problemas relacionados direta ou indiretamente ao uso dessa substância consomem de 0,5% a 4,2% do PIB (Produto Interno Bruto).

Esses dados têm levado as empresas a ficarem atentas à questão do alcoolismo e isso pode ser observado através do aumento, mesmo que em ritmo lento, dos programas voltados para prevenir ou tratar a dependência química de colaboradores. No entanto, a questão é muito delicada e merece ser tratada com cuidado e ética.

O funcionário dependente precisa ser abordado com discrição e encaminhado para as áreas de Recursos Humanos, social ou de saúde. De acordo com a mestre em psicologia e especialista em dependência química Dra. Dorit Verea, após uma entrevista sigilosa, o dependente poderá ou não concordar com o tratamento e a prevenção oferecida pela organização. "O dependente químico é livre para não aceitar tratamento, a menos que sua profissão coloque em risco a vida de outras pessoas, como no caso de motoristas ou pilotos, por exemplo. A empresa, por sua vez, também é livre para impor seus limites", explica a psicóloga. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Verea fala sobre os principais sinais que se manifestam num profissional que enfrenta problema de dependência química e quais os benefícios que as corporações têm ao investir em ações preventivas. Confira a entrevista e boa leitura!

RH.com.br - O número de profissionais com algum tipo de dependência é significativo?
Dorit Verea - Infelizmente, sim. Existem em torno de 10 a 15% de funcionários com problemas de dependência química como, por exemplo, álcool e outras drogas, sem contabilizar outras como compulsões como jogo patológico, comprador compulsivo, dependência de sexo, Internet, academia e outros. Para se ter uma idéia, cerca de 71% dos usuários de drogas estão empregados. Recentes estudos concluíram que 80% dos usuários de cocaína e 70% dos americanos viciados em algum tipo de droga possuem empregos fixos. No Brasil, tais índices não se diferenciam muito dos americanos.

RH - Qual o tipo de dependência é mais comum entre os profissionais brasileiros?
Dorit Verea - O álcool é apontado como o vício mais comum entre os trabalhadores. É bom lembrar que a dependência é democrática e não seleciona sexo, raça, idade ou perfil predeterminado. Ela pode atingir qualquer pessoa.

RH - Como a empresa pode identificar, no dia-a-dia, que um colaborador tem algum tipo de dependência?
Dorit Verea - A dificuldade em manter um desempenho satisfatório no trabalho tem aspectos comuns a qualquer outro transtorno mental, por isto é importante, além de identificar indícios, manter sempre o diálogo aberto com o colaborador. Em geral, surgem alguns comportamentos entre os dependentes como, por exemplo, faltas recorrentes principalmente nas segundas-feiras, diminuição de dedicação ao trabalho e dificuldade de concentração durante o desempenho das funções. A pessoa dependente começa a contrair dívidas, apresentar sintomas de doenças e até mesmo, em alguns casos, chega a internações. É bom ressaltar que as funções que exigem atenção e concentração também são gravemente afetadas e, em muitos casos, o risco de acidentes graves pode surgir. É o caso de operadores de máquinas perigosas, de trabalhadores da construção civil, motoristas de ônibus, operadores de trens e metrôs, entre outros.

RH - De que forma a empresa pode chegar ao profissional dependente de forma ética e eficiente?
Dorit Verea - Chegar até um dependente gera um momento delicado tanto para quem vai abordar o problema quanto para o profissional dependente. Por isso, para tratar esta questão de forma ética é necessário ter desenvolvido na empresa um programa de política de ação para o uso indevido de drogas. A abordagem deve, por exemplo, evitar o uso de uma linguagem repressora, assim como ações estigmatizantes ou discriminatórias sobre o uso de drogas. É fundamental também se documentar sobre o comportamento do profissional dentro da empresa e evitar os "achismos".

RH - Quais as implicações legais que um funcionário-dependente pode sofrer?
Dorit Verea - As implicações, que incluem desde uma simples advertência à demissão, vão além da dependência em si, mas sim do comportamento e das atitudes do dependente na empresa. Não podemos generalizar, pois cada caso é um caso.

RH - Que ações uma empresa pode adotar para conscientizar os colaboradores sobre as conseqüências da dependência química?
Dorit Verea - Existem várias alternativas que podem ser aplicadas no dia-a-dia organizacional. Dentre essas, podemos citar: convidar profissionais especializados para dar palestras sobre o tema; estimular a criação e a manutenção de uma equipe, formada por líderes naturais, que funcionem como referência para os programas desenvolvidos; promover atividades que ofereçam informações e desenvolvam a percepção de risco de uso de drogas, baseadas no conhecimento científico; desenvolver projetos específicos e possibilitar treinamento e capacitação para os setores de Recursos Humanos, saúde, serviço social e CIPAS. Outra alternativa é a confecção de material educativo especializado como, por exemplo, produção de impressos e áudios-visuais que devem ser apresentados aos funcionários.

RH - Esse tipo de trabalho precisa ser contínuo?
Dorit Verea - Claro que precisa e deve, pois somente um processo contínuo pode mudar a cultura da empresa e dos colaboradores em relação ao uso indevido de drogas. Ao adquirir maior consciência sobre as implicações do uso e do abuso de álcool e de outras drogas, bem como um maior nível de desenvolvimento pessoal, os funcionários tornam-se aptos a promoverem os valores éticos da empresa. Mais do que isso, os funcionários são motivados a investir no seu próprio crescimento pessoal e profissional, redundando em níveis mais elevados de produtividade e responsabilidade. O papel da empresa é fundamental em relação à prevenção e ao subsidiário no que se refere à terapia do usuário de drogas.

RH - Que conseqüências funcionários dependentes geram à empresa?
Dorit Verea - Gera conseqüências nada agradáveis. Quando a empresa contrata ou mantém um colaborador dependente em seu quadro isso pode significar:
* três vezes mais licenças médicas daquelas ocasionadas por outras doenças;
* aumento de cinco vezes nos riscos de acidentes de trabalho;
* cerca de 15% a 30% de todos os acidentes de trabalho podem ser gerados por profissionais dependentes;
* hoje, por exemplo, considera-se que 50% do absenteísmo e das licenças médicas são decorrentes de pessoas que apresentam algum tipo de dependência;
* utilização de oito vezes mais diárias hospitalares;
* três vezes mais gastos com assistência médica e social às famílias dos dependentes;
* custo anual em perdas patrimoniais, furtos, acidentes e despesas médicas. No Brasil, as cifras chegam a 19 bilhões de dólares com pessoas que apresentam algum tipo de dependência.

RH - E as empresas que investem em ações preventivas ou de tratamento para dependentes, obtêm bons resultados?
Dorit Verea - Para se ter uma idéia de como é importante as organizações ficarem atentas para essa questão, os resultados da prevenção e tratamento indicam:
* redução de 91% de faltas;
* diminuição de 88% dos problemas disciplinares:
* queda de 93% de erros nas atividades do trabalho;
* redução em até 97% dos acidentes de trabalho.

RH - Em relação ao clima interno, o funcionário-dependente traz obrigatoriamente algum comprometimento à equipe?
Dorit Verea - Como já mencionei no início da entrevista, a produtividade e a qualidade do trabalho do dependente químico freqüentemente ficam prejudicadas. Portanto, alguém da equipe deverá trabalhar a mais para suprir a demanda e isto compromete não só o trabalho em si, mas também a qualidade das relações da equipe e o ambiente corporativo.

RH - Como a área de RH deve se comportar diante da dependência de funcionários?
Dorit Verea - É fundamental que a empresa tenha um programa de atenção ao uso indevido de drogas na empresa. Neste programa deverá constar a visão, a missão, as regras, a política de ação, as atividades, as responsabilidades e tudo o que for relevante quanto à questão das drogas. Um grupo gestor poderá responsável pelo programa que determinará o papel das áreas de Recursos Humanos e do serviço social, levando em consideração a cultura da empresa. Uma vez implantado o programa, deve-se sensibilizar os funcionários e desenvolver condições para que possam receber ajuda ou falar sobre o uso de drogas, garantindo o sigilo. Outra ação importante é encaminhar para locais especializados os empregados que necessitam de tratamento e não tentar ser o "salvador da pátria".

RH.com.

 

 
 
VOLTAR