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Orgias alimentares

Comer exageradamente e, em seguida, tentar se livrar de tudo com métodos agressivos. Conheça o comportamento de quem sofre de bulimia nervosa, doença que atinge mulheres em 90% dos casos.

Por Pamela Cristina Leme

Médicos indicam que, num dia inteiro, uma pessoa consuma entre 1.500 e 2.500 calorias. Algumas mulheres, no entanto, são capazes de devorar em menos de duas horas a soma dessas medidas. São pessoas que encontram em alimentos ricos em gordura e carboidratos o alívio para perturbações emocionais. E para compensar tais ataques à comida, vale de tudo. Laxantes, diuréticos, lavagens, jejuns prolongados ou prática exagerada de exercícios físicos garantem o corpo perfeito que elas procuram. Episódios desse tipo denunciam a presença de uma doença perigosa: a bulimia nervosa.

"Quando esse tipo de comportamento se repete pelo menos duas vezes por semana durante três meses, dá-se o diagnóstico dessa doença", explica o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas da USP. De acordo com ele, um conjunto de causas é responsável pelo problema. "Não dá para apontar um único motivo. Em geral, a herança genética aliada às influências familiares, sociais e culturais, além de traumas pessoais e mudanças hormonais, é o que desencadeia esse problema."

O médico salienta que, na bulimia, a pessoa busca um modelo de corpo avaliado como ideal ou perfeito do ponto de vista sócio-familiar e ditado pela cultura vigente. Somado a isso, está uma educação em que a autonomia dos filhos sofre interferência dos pais, o que leva à baixa auto-estima dos pequenos. "Eles nunca dão ouvidos às vontades da criança e as obrigam a fazer exclusivamente aquilo que acreditam ser fundamental, mesmo que o jovem não tenha o menor prazer naquela atividade", explica Cristiano. Recentemente, esse exemplo ganhou vida na dramaturgia, por meio da novela Páginas da Vida, atualmente veiculada nas noites da Rede Globo.

Na trama escrita por Manoel Carlos, o assunto é tratado com a personagem de uma criança, Giselle, interpretada por Rachel de Queiroz. Ela filha da personagem Anna, vivida por Deborah Evelyn. Por pressão da mãe, a menina faz balé clássico e é obrigada a manter uma dieta rigorosa. Com apenas 10 anos, ela não deixa de comer, mesmo que escondida, doces e lanches. Mas a sensação de culpa faz a garota ir ao banheiro forçar o vômito, antes que a mãe perceba que ela transgrediu sua orientação.

"Depois desses ataques alimentares, o indivíduo se sente envergonhado e fica com um forte sentimento de culpa por ter perdido o controle", ressalta o psiquiatra Pedro Daniel Katz, do Hospital Samaritano e diretor da clínica Prisma, de São Paulo. Ele afirma que é comum entre os bulímicos esconder alimentos em casa, preferencialmente no quarto, e devorar tudo ao fim do dia ou à noite. Para mitigar os efeitos provocados por tamanha ingestão de comida, quem tem esse problema costuma se dividir em dois grupos: os que buscam rituais purgativos (vômitos, laxantes e diuréticos) e quem preferem eliminar o peso sem purgação (com jejuns e prática frenética de exercícios). "Ainda assim, há casos de pessoas que alternam entre esses dois métodos", aponta Pedro.

Sintomas da bulimia nervosa:

*Ingestão exagerada de alimentos em curtos períodos de tempo sem o aumento correspondente do peso corporal;
Vômitos auto-induzidos por inversão dos movimentos peristálticos ou colocando o dedo na garganta;
Uso indiscriminado de laxantes e diuréticos;
Dietas severas intermediadas por repentinas perdas de controle que levam à ingestão compulsiva de alimentos;

*Distúrbios depressivos, de ansiedade, comportamento obsessivo compulsivo e auto-mutilação.


Bulimia x Anorexia
Pacientes com bulimia, diferente das anoréxicas, não se caracterizam pela magreza extrema. Muitas, aliás, tem um corpo escultural graças ao cuidado excessivo com o corpo. "A diferença básica entre esses transtornos é que na anorexia a mulher sofre com a distorção da imagem corporal. Ela deixa de comer porque sempre se vê gorda no espelho. Na bulimia, elas têm consciência do seu aspecto físico", aponta Cristiano Nabuco. Apesar de configurarem num quadro de menos risco à própria vida, as bulímicas também comprometem - e muito! - a saúde. "Já tive casos de pacientes que ingeriram 50 Lactopurgas depois de comer apenas um pacote de Clube Social", conta o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu.

Segundo o médico, a alimentação precária dessas pessoas e a conseqüente falta de nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo fazem com que seja comum a presença de dores de estômago, cansaço, desmaios, náuseas, diarréia, irregularidade menstrual, apodrecimento dos dentes (já que os vômitos provocam o aumento do sulco gástrico), além de distúrbios depressivos, de ansiedade, de comportamento obsessivo-compulsivo e de auto-mutilação. Cristiano lembra que a bulimia costuma afetar mulheres (em 90% dos casos) com idade entre 15 e 25 anos. "Nos homens, o transformo costuma chegar mais tarde. Em geral, a partir dos 20 anos."

Ajuda
Embora a bulimia nervosa esteja associada a transtornos de depressão, impulsividade, baixa auto-estima e ansiedade, além da ajuda psicoterápica, é fundamento no tratamento dessa doença o acompanhamento de médicos de outras especialidades. "Não é qualquer profissional que está apto a tratar esse problema. O ideal é procurar ajuda de uma equipe multidisciplinar, que conte com terapeutas, psicólogos, psiquiatras e nutricionistas, para uma reeducação alimentar", garante o médico do Ambulim. Em alguns casos, é indicado o uso de medicamentos antidepressivos ou estimuladores de humor.

Com trabalho em conjunto, os médicos costumam levar cerca de cinco meses para tratar o problema. "Nesse processo, o apoio dos amigos e especialmente da família, que também participa do tratamento, é fundamental. A boa notícia é que as pacientes bulímicas são menos resistentes a aceitar que precisam de ajuda em comparação às anoxéricas e têm mais chances de não voltar a apresentar esse quadro", sinaliza Pedro.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxGuia da Semana - MULHER - set 2006

 
 
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